Vivemos a dois.
Não por escolha, mas por consequência.

Somos um casal maduro — ele com 57 anos, eu com 68. Temos uma história que começou depois de outras histórias. Ele com suas quatro filhas adultas, eu com meu filho, também adulto e casado. A vida passou, como um rio que corre sem pausa e fomos ficando, com menos gente à nossa volta.
Há quase dois anos, perdi minha mãe. Ainda ouço sua voz em alguns cantos da casa. Às vezes, me pego virando o rosto como se ela estivesse me chamando. Mas não está mais. E, aos poucos, fui percebendo que, além dela, outros também se foram — não porque morreram, mas porque nos esqueceram.
Nas datas de comemoração, somos só nós dois. Natal, Ano Novo, aniversários, Páscoa… tudo se resume a duas taças, dois pratos e a esperança, silenciosa, de que, talvez, alguém apareça. Mas, raramente aparece.
As filhas dele seguiram seus caminhos. Têm suas vidas, seus compromissos, suas rotinas, que nunca nos incluem. Meu filho… é o mais próximo, mas tem a família da esposa e a vida também o carrega. Sempre há outro lugar onde ele precisa estar. Agora, mais ainda, pois vem uma filha por aí.
E nós? Estamos aqui!
Vivendo um amor quieto, mas firme. Um amor que resiste às ausências.
Muitos nos olham e pensam que escolhemos o isolamento. Mas não. O isolamento nos escolheu!
As mensagens deixaram de vir, os convites pararam de chegar. O mundo ficou barulhento demais, para notar a nossa presença. Viramos pais e avós invisíveis.
Mas ainda temos o lago.
Nos sentamos juntos à beira dele, em silêncio. Observamos o reflexo das árvores, o vai e vem das pequenas ondas. Ali, somos só nós dois — e, de certo modo, isso tem sido o bastante. Porque, mesmo com todas as perdas, nos restamos. E isso tem um valor que poucos sabem reconhecer.
Talvez um dia leiam isso e lembrem da gente. Talvez alguém se dê conta de que os pais ainda estão vivos, esperando uma ligação. Talvez não.
Mas hoje, ao escrever, ao olhar o homem que caminha comigo apesar de tudo, sei que o amor ainda habita aqui.
Mesmo no silêncio.
Mesmo na solidão.
Mesmo esquecidos.
Ainda assim, amados.
Ray “NegraGatta” Casales