O último dia do ano havia sido longo…

Enquanto muita gente se preparava para festas, fogos e reuniões familiares, nós passávamos a tarde em uma UPA.
Não havia glamour.
Não havia celebração antecipada.
Não havia expectativa de grandes encontros.
Havia apenas a vida, mais uma vez, exigindo de nós aquilo que ela sempre exigiu: coragem.
Voltamos para casa cansados.
Fisicamente desgastados.
Emocionalmente silenciosos.
E, ainda assim, havia uma virada de ano para atravessar.
Então fizemos o que sempre fizemos ao longo de toda a nossa história: seguimos juntos.
Às pressas, montamos um pão de metro.
Gelamos uma Coca-Cola.
Resgatamos um espumante.
Colocamos duas taças sobre a mesa.
Duas.
Nem mais.
Nem menos.
Porque, naquele momento, éramos apenas nós.
Como tantas outras vezes.
Como quase sempre.
A mesa não refletia abundância.
Refletia presença.
Não representava festa.
Representava permanência.
Não era uma fotografia de prosperidade.
Era uma fotografia de resistência.
Ali estavam vinte e seis anos de caminhada.
Ali estavam as ausências.
Os afastamentos.
Os silêncios que a vida impôs.
As cadeiras vazias que aprendemos a respeitar.
Os lugares que um dia imaginamos ocupados por filhos, netos, familiares e amigos.
E que, naquela noite, permaneceram vazios.
Mas havia algo que não estava ausente.
Nós.
Depois de tudo.
Depois das dores.
Depois das perdas.
Depois das decepções.
Depois dos desencontros.
Depois da tarde passada numa UPA.
Ali estávamos.
Frente a frente.
Como naquela madrugada de novembro de 1999.
Como no primeiro beijo.
Como na caminhada silenciosa entre a Barra e o Campo Grande.
Como em cada mudança.
Como em cada recomeço.
Como em cada dificuldade financeira.
Como em cada vitória.
Como em cada derrota.
A mesa estava posta para dois.
Mas a história que ela carregava era enorme.
Talvez alguém olhe para esta fotografia e sinta pena.
Nós não.
Quando a observamos, vemos outra coisa.
Vemos duas pessoas que continuaram escolhendo uma à outra, mesmo quando seria mais fácil desistir.
Vemos um amor que aprendeu a sobreviver sem plateia.
Sem aplausos.
Sem testemunhas.
Apenas existindo.
Porque, no final das contas, a felicidade nunca esteve na quantidade de cadeiras ocupadas.
Ela sempre esteve na certeza de quem permanece sentado à mesa.
E naquela noite de 31 de dezembro de 2025, mais uma vez, éramos apenas nós.
Eu e você.
Você e eu.
Os dois copos.
As duas taças.
O pão improvisado.
A Coca-Cola.
O espumante.
E uma história inteira servida à mesa.
Com Amor, Por Amor, Para Amar. 🐾❤️