O segundo dia após aquela madrugada no mIRC parecia um teste de realidade. Ney ainda lembrava do timbre da voz de Ray como quem guarda uma melodia nova, que não sai da cabeça. Ele tentava se concentrar no trabalho, nas filhas, nas obrigações. Mas no fundo, sabia que algo havia mudado.
Ray, por sua vez, carregava uma estranha mistura de medo e curiosidade. “Quem é esse homem? Por que eu sinto essa vontade de falar com ele de novo, se mal o conheço?” Era um pensamento que insistia, mesmo enquanto ela preparava o café da manhã do filho, mesmo durante as tarefas de casa.
Dois dias depois, resolveram se ver pessoalmente. Não foi nada planejado demais, não houve flores, nem promessas. Apenas um encontro. Mas, quando se olharam pela primeira vez, tudo pareceu… natural. Como se já se reconhecessem de algum lugar antigo e secreto.
O beijo aconteceu ali mesmo, quase sem aviso. Não foi um beijo de cinema – não havia plateia, nem trilha sonora. Mas foi verdadeiro. Era como se cada um estivesse dizendo silenciosamente: “Sim, eu também senti.”
Depois disso, veio o silêncio mais eloquente que já tiveram. Eles começaram a caminhar. Do Cristo da Barra até o Campo Grande. Quilômetros. Mãos dadas, olhos no chão, passos sincronizados. Não trocaram uma palavra sequer. E ainda assim, era como se dissessem tudo.
Ray sentia a mão dele firme, quente, segura. Ney, por sua vez, sentia uma calma estranha, quase infantil. “Eu não sei quem ela é direito, mas sei que não quero soltar essa mão.”
Quando chegaram ao destino, ela entrou em casa, ele ficou parado por alguns segundos, tentando entender o que havia acontecido. Mas a verdade é que não havia nada a entender. Era o começo.
Naquela noite, Ney deitou ao lado de uma esposa que já não era parte de seu coração. Ray dormiu ao lado do vazio que seu namoro representava. Ambos, no entanto, foram para a cama com a sensação de que algo novo tinha sido aceso – e que não seria fácil apagá-lo.