Capítulo 1 – Quando Dois Mundos se Encontram

Era madrugada de 8 de novembro de 1999. O mundo lá fora dormia, mas Ney estava acordado, olhando para a tela fosca do computador. O som metálico da conexão discada ainda ecoava pela casa – aquele chiado estranho que marcava o início de um ritual noturno.

Naquela época, a internet não era o oceano veloz que é hoje. Era uma correnteza lenta, quase tímida, mas cheia de encontros improváveis. Ney digitava com a paciência de quem carrega o peso de dias difíceis. Vivia um casamento que já era mais uma trincheira que um lar, tinha quatro filhas e um coração cansado, mas ainda inquieto.

Do outro lado da cidade, Ray fazia o mesmo. Divorciada desde muito jovem, mãe de um menino de seis anos e com uma dor que ainda queimava – a perda de um filho – ela também buscava algo que nem sabia nomear. Tinha um namorado, sim, mas sabia que aquele vínculo era raso, incapaz de tocar o vazio que ela carregava.

Foi no mIRC, um espaço virtual que mais parecia um grande salão cheio de vozes digitais, que eles se cruzaram pela primeira vez. Ney, com seu nickname “NegroGatto”, enviou a frase que usava como saudação:

“NegroGatto dá sete tiros pro alto, mata oito urubus, para saudar Buma.”

Ray sorriu diante da tela. Buma era seu apelido naquela rede, mas naquele instante ela pensou: “Quem é esse cara? Será que me conhece?”.

O que começou como uma troca rápida virou uma conversa que atravessou a madrugada. Falaram sobre tudo – infância, medos, sonhos, música, filhos. Era como se duas vidas que sempre correram paralelas finalmente tivessem encontrado um ponto de interseção.

Quando perceberam, o céu já clareava. As linhas no chat ficaram pequenas demais para conter o que sentiam, então fizeram algo ousado para a época: desligaram o computador e ligaram um para o outro. A voz de Ney era calma, profunda. A de Ray, firme, mas doce.

— Acho que a gente já se conhece, não? – ela disse, meio rindo.

— Talvez de outra vida – ele respondeu, sem hesitar.

Conversaram até as oito da manhã. Ray quase perdeu o horário de trabalho. Ney desligou o telefone com um misto de euforia e surpresa: “Por que eu sinto que isso não acabou? Por que parece que preciso ouvir essa voz de novo, amanhã?”

Dois dias depois, eles se viram pessoalmente. O primeiro beijo foi tímido, quase um teste. E então aconteceu algo que nenhum dos dois conseguiu explicar: eles caminharam lado a lado, de mãos dadas, do Cristo da Barra até o Campo Grande. Quilômetros em silêncio absoluto. Não havia necessidade de palavras.

Era como se, no encontro de duas solidões, tivesse nascido uma promessa silenciosa: a partir daqui você não vai mais andar sozinho.

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